Por que gosto de gatos?


Por que gosto de gatos? Pelo mesmo motivo por que gosto de cachorros, de gente, de plantas… Porque são seres vivos e podem ser encantadores! Como também podem ser insuportáveis! E a gente tem de aprender a lidar com eles. E aprender a lidar com uns e outros é o que faz a vida ter sentido. Às vezes não dá pra lidar e a gente tem de desistir e procurar não sofrer. Isso no geral, em relação a qualquer ser vivo. Na verdade, os gatos que tenho, eu os herdei. A filha, já moça, pegou uma gatinha, jurou que ia cuidar, mas acordava tarde, a gatinha, claro, me elegeu. No primeiro cio não conseguimos segurá-la, vieram os quatro gatinhhos, cada um mais lindo que o outro. A primeira que nasceu, Alice, veio grande, tão grande que tive de ajudar no parto. Algumas horas depois, já refeita de todo o esforço despendido, a mãe trouxe-a na boca e a depositou sobre meus pés enquanto eu falava no telefone, como quem dizia: — Esta é sua! Gestos assim nos fazem cair de paixão! Na época desses nascimentos, havia aqui em casa uma gatinha de uma amiga que morava conosco, foi ela quem fez tudo, lambeu os filhotes até limpá-los totalmente, um por um, comeu a placenta, ajudou a dar de mamar, e seu filhote de dois meses, chamado Modêsu, de tanto que as pessoas diziam Mo Dêsu! que coisa mais linda!, foi quem lhes ensinou boas maneiras, o caminho do pipicat e coisas do gênero! Diante de tanta generosidade, como não se apaixonar? Muitas são as histórias daquele tempo. Vou contar uma: os gatinhos já corriam soltos pelo quintal e eram colocados pra dentro de casa quando escurecia. Não encontrei Alice, procuramos pra todo lado! Então notamos que a Bê ficava quietinha num determinado lugar, onde havia um cano para saída de água do quintal. Prestamos atenção e escutamos o miadinho dela lá longe, aflita. Tinha entrado pelo cano e não conseguia voltar, não havia espaço para se virar. Foi uma aflição só! O caseiro, um cara maravilhoso que tínhamos aqui e que dizia não curtir os gatos, quase morreu de aflição, foi quebrando o cimento à procura das caixas d’água, até encontrá-la na última, já do outro lado da casa, toda molhada e imunda! Minha filha, toda trêmula, correu com ela para o banheiro e lhe deu um banho na pia, enxugou-a bem enxugadinha, colocou-a no meu colo e saiu para encontrar amigos e dançar. Menos de meia hora depois já estava de volta, com as pernas ainda trêmulas como podia dançar forró? Um dia o caseiro se casou, tempos depois minha empregada que estava conosco há treze anos também precisou ir.

Meu trabalho, que tudo tinha me dado, casa, carro, etc, mudou. Nunca mais tive um daqueles trabalhos enormes que costumava ter, desfiz equipe, passei a trabalhar sozinha. Aí, a filha foi morar na França, onde já estava a outra filha menor, e cá fiquei eu com quatro cachorros, dois enormes, e sete gatos: Bê, a mãe, Alice, Caleb, Canela, Clarinha e Modêsu. E Tica. Que um dia pulou aqui para comer, brava, esparramando gato e cachorro pra todo lado, correndo atrás do rabo, dilacerando-o e me fazendo correr a toda hora para o veterinário para fazer curativo! (A mãe de Modêsu e sua dona já tinham encontrado casa.) Foi, e tem sido, realmente um grande aprendizado. Tive de cortar o rabo da Tica, depois de tentar todo tipo de tratamento, alopático, homeopático. Hoje, quando fica brava, mas de uma braveza bem mais mansa, senta-se nas patinhas de trás e com a pata dianteira direita tenta bater no cotó do rabo! Quer chamar minha atenção. Às vezes nem ligo, outras digo: rabinho feio! e ela se acalma. Outras fico brava também e ela acha seu rumo! Deve ter sofrido muito antes de me escolher, minha brava e doce Tica! Essa que não nasceu aqui é a paixão maior, é quem dorme na minha cama, quem se levanta de noite para ir comigo fazer xixi e se embaraça nos meus pés enquanto tento caminhar, é quem fica comigo no banheiro enquanto tomo banho — e só pede pra sair quando a sauna está demais! — é quem trabalha comigo, sempre quietinha, sem me atrapalhar, parece que sabe que preciso de silêncio enquanto trabalho. Permite que todos fiquem à minha volta enquanto vejo TV, assim que desligo, expulsa todos! Dormir comigo, só ela! Cada um deles é especial. Caleb, o único macho, é de uma doçura incrível. E tem horror a remédio. Como tem um pouco de alergia ao sol, preciso passar hipoglós ou protetor solar nas pontinhas das orelhas dele e ele odeia! Então, quando o grude tá demais, ou estou sem tempo, digo “vamo passá um memédio na lelelha?” e ele sai correndo. Alice é a mais linda e independente. De vez em quando sente falta do meu braço esquerdo — só gosta de se deitar no braço esquerdo —, então se aconchega e não gosta que eu fique me mexendo.  Clarinha, a mais selvagem, não entra dentro de casa, só na garagem, para comer. Ou quando foguetes estouram e trovões e raios ameçam destruir o mundo! Mora na floreira que fica acima dos portões da casa. É a única que caça. De vez em quando encontro um pobre passarinho sacrificado. E convida vários amigos da redondeza para comer às minhas custas! Canela, que já morreu faz três anos, era a mais faladeira, contava muitos casos, toda manhã. Uma vez sumiu junto com a gatinha da vizinha, por 12 dias! Chegou cheia de histórias! Não gostava muito dos irmãos, preferia as duas cachorras menores, era com elas que dormia. Muitas vezes encontrei-a dormindo em cima da Tutu, a viralata, outra criatura santa, que até socorre os gatinhos quando eles passam mal. É minha única cachorra agora. Tem 13 anos. Os gatinhos, 14, recém-feitos. Todos os gatos reconhecem meu carro assim que ele aponta na rua, sabem na casa de que amiga aqui da rua estou e me esperam na saída, são meus gatos de guarda.  Você pergunta pelas vantagens de se ter um gato! Quer mais vantagem do que essa de ser tão amada? Os cuidados? Gatos requerem bem menos cuidados que cachorros. Basta deixar ração e água fresquinha. Uma janela aberta e muita liberdade. De vez em quando, é verdade, principalmente quando chove e dá uma preguiça de ir lá fora… um xixi escapole na escada ou em algum canto da casa e aí… haja paciência e produtos para conseguir tirar o cheirinho! Coisas da vida, né? Fazer o quê? Ninguém é perfeito!
Maria C. Tavares
(recebido via email)

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